I
e a verdade caiu alí por inteiro. inopinada.
desesperada. como um bátega.
distrairam-se dos relógios
a confundir o sono da tarde
e voltaram a olhar os relógios.
cada qual.
no passeio contrário apressou-me
um homem que levava uma encomenta
a embriagarem-lhe as pernas
as que subiam escadas
há oitenta anos.
olhou-os sem admiração
e a encomenda
vacilou dois percalços
entre a montra de langerie
e o sapateiro gordo
sonolento
a divagar contra umas gáspeas.
uma criança assobiou
um trinado pimba.
e os homens acabaram por dispersar
sem um aceno de adeus.
II
na ocasião
cada qual podia dizer o que entendesse
e aos mais castos
era permitido ficarem absortos
sem contribuírem para os desacertos
com que cada outro
dialogava o vento inesperado
o sol dos costumes
e a maria do fundo de vila.
que apostavam grávida.
que garantiam acertar não saber de quem.
III
era o tempo antigo.
a desculpa que os permitia
os arreigados hábitos
o desdém de alterar.
gastavam os caminhos
na teimosia da insistência.
e até as palavras de aceno
eram o silêncio do falso toque
que sugestionava
um soluço do chapéu.
8.27.2009
Nocturno
Gostava de dizer-te, madrugada
ao nascer do ouvido, se consente
que sou da noite, erva decepada
e só assim me tomo por valente
Não acredito no Sol, tão inebriado
que ofusca solidão a todo o tempo
prefiro é um gesto gasto e parado
fico melhor no Novembro cinzento
Gosto de andar no escuro, errante
e se brilho aí houver que seja eu
a sonhar que cavalgo o rucinante
e se o Sol quiser, venha ser meu.
ao nascer do ouvido, se consente
que sou da noite, erva decepada
e só assim me tomo por valente
Não acredito no Sol, tão inebriado
que ofusca solidão a todo o tempo
prefiro é um gesto gasto e parado
fico melhor no Novembro cinzento
Gosto de andar no escuro, errante
e se brilho aí houver que seja eu
a sonhar que cavalgo o rucinante
e se o Sol quiser, venha ser meu.
a revolta das coisas
sou um relógio.
daqueles de cuco preto
e um rancho bávaro
a guinchar as horas.
há um menino
de calções repuxados pelos guindastes dos suspensórios
que se esconde da mãe
e me volteia o pêndulo
até à exaustão dos bávaros.
o cuco já não pode com ele
e
qualquer dia
- está combinado -
vamos estatelar-nos naquele cabelo loiro de tigela.
a mãe dirá que é acidente
o garoto vai amargar três pensos
e redondos de mercúrio.
o deus dos relógios, o dos cucos, o dos ranchos,
tal como o deles,
perdoarão esta legítima defesa.
daqueles de cuco preto
e um rancho bávaro
a guinchar as horas.
há um menino
de calções repuxados pelos guindastes dos suspensórios
que se esconde da mãe
e me volteia o pêndulo
até à exaustão dos bávaros.
o cuco já não pode com ele
e
qualquer dia
- está combinado -
vamos estatelar-nos naquele cabelo loiro de tigela.
a mãe dirá que é acidente
o garoto vai amargar três pensos
e redondos de mercúrio.
o deus dos relógios, o dos cucos, o dos ranchos,
tal como o deles,
perdoarão esta legítima defesa.
regressos
No instante perdido
entre o desacerto e a vontade de voltar a ver
quedei. encontrei no teu horizonte
misturas de insatisfação antiga
(de tanto desejo por cumprir)
e de diferentes alegrias de crença
(de tantas vontades começadas)
e sempre o singelo brilho
que confunde o sentimento íntimo.
Deixei de te ver
quando o horizonte e o mar
desenharam
uma amálgama de cores
e a confusão da vista
se refez na da respiração compassada
com que
deixava o tempo partir
em fim de tarde.
pouco esperançado
(mas ansioso)
do teu
- eventual -
regresso
em mistura de escuro
brilhando como as estrelas.
entre o desacerto e a vontade de voltar a ver
quedei. encontrei no teu horizonte
misturas de insatisfação antiga
(de tanto desejo por cumprir)
e de diferentes alegrias de crença
(de tantas vontades começadas)
e sempre o singelo brilho
que confunde o sentimento íntimo.
Deixei de te ver
quando o horizonte e o mar
desenharam
uma amálgama de cores
e a confusão da vista
se refez na da respiração compassada
com que
deixava o tempo partir
em fim de tarde.
pouco esperançado
(mas ansioso)
do teu
- eventual -
regresso
em mistura de escuro
brilhando como as estrelas.
8.26.2009
à espera das flores
deitei-me em cima do silêncio
à espera do teu grito.
a cidade desocupa-se dos meus tormentos.
o relógio diz oito e dezoito
e eu via uma gaivota
a recolher as preces.
é noite, ainda:
enquanto o sol engole as ruas
reinvento o tempo
em lágrimas repetidas.
como se fosse sempre uma primeira vez
levanto-me trôpego
e visto à pressa a camisa de desânimos
e calço este poema triste
e a gravata - como outrora - melancólica.
mais logo
à noite
trarei flores de cheiro leve e
mesmo que breve
repito a tua espera.
à espera do teu grito.
a cidade desocupa-se dos meus tormentos.
o relógio diz oito e dezoito
e eu via uma gaivota
a recolher as preces.
é noite, ainda:
enquanto o sol engole as ruas
reinvento o tempo
em lágrimas repetidas.
como se fosse sempre uma primeira vez
levanto-me trôpego
e visto à pressa a camisa de desânimos
e calço este poema triste
e a gravata - como outrora - melancólica.
mais logo
à noite
trarei flores de cheiro leve e
mesmo que breve
repito a tua espera.
8.23.2009
8.13.2009
milimetrica mente
milimetricamente
desenho os teus dedos com a minha mão
rezo aos medos
e deito-me a imaginar a cor do adeus;
depois (sem qualquer razão)
vejo que já não são os teus
e espero que a manhã venha inquieta,
que vista papoilas onde deixei as rosas
e que todas as letras das prosas
se desfaçam no poema que esqueci
bem diferente de ti
eu penso ainda amar o esquecimento
corto então as mãos do meu desenho
dedo a dedo, medo a medo
sem saber se são as tuas ou as minhas
não me amanho,
estou farto de adivinhas,
e as palavras que misturo neste verso
são todas falsas sem o teu regresso
resta que a cama sonhe em meu lugar
um terraço de sereias cor da sorte;
junto ao mar
desfaço sempre a meias
meia morte
e fico mais à espera, agora que a noite se revolte
e não aceite palavras que não murchem
não quero nada maior que a memória
(13.08.2009)
desenho os teus dedos com a minha mão
rezo aos medos
e deito-me a imaginar a cor do adeus;
depois (sem qualquer razão)
vejo que já não são os teus
e espero que a manhã venha inquieta,
que vista papoilas onde deixei as rosas
e que todas as letras das prosas
se desfaçam no poema que esqueci
bem diferente de ti
eu penso ainda amar o esquecimento
corto então as mãos do meu desenho
dedo a dedo, medo a medo
sem saber se são as tuas ou as minhas
não me amanho,
estou farto de adivinhas,
e as palavras que misturo neste verso
são todas falsas sem o teu regresso
resta que a cama sonhe em meu lugar
um terraço de sereias cor da sorte;
junto ao mar
desfaço sempre a meias
meia morte
e fico mais à espera, agora que a noite se revolte
e não aceite palavras que não murchem
não quero nada maior que a memória
(13.08.2009)
8.12.2009
coisas que são próprias da lua
7.29.2009
7.27.2009
mais a sério
selo-te uma carta em tons de pérola e ponho lá dentro um ramo de corações irrequietos. assim que abrires obrigam-te a rir e mais facilmente dirás que sim.
voltando aos tempos
falávamos no cochicho das janelas, entre os alpendres da vigilância e prometíamos futuros o tempo todo. nem a chuva nos arreda da comunicação, como os ossos hoje bem sabem.
cibertempos
queria mandar-te uma mensagem nas ciberondas. mas dizem que isso é só para os primeiros. tempos estes...
7.26.2009
7.25.2009
7.23.2009
um azar nunca chega sozinho
a chave era da outra semana. confirmou-se depois de do chefe ter ido àquela parte. ele respondeu à letra.
certeza
um dia, era uma segunda-feita tão cinzenta como as anteriores, o signo informou que jorraria dinheiro, ainda que com ligeiro prejuízo para o amor. tínhamos o bastante. corremos a ver a chave e, um a um, os números ditavam riqueza. dormimos como santos, até à hora do telefone gritar do emprego.
horóscopo
às vezes era segunda-feira e corríamos atrás de uma crença que nos resolvesse a semana. o jornal de ontem, deixado a meio na mesa da cozinha era o redentor dos distraídos. apressávamos a leitura do horóscopo, insuflados da esperança de haver muita sorte ao jogo. o totoloto estava por corrigir e talvez pudéssemos adormecer o dia todo. ricos.
naqueles tempos
aos domingos o sol escusava-se com outros afazeres, e tardava a chegada. deixávamos que a cama servisse de banquete, e esperávamos tardias cócegas nas persianas. nem a hora da missa, na televisão a duas cores, nos desatordoava dos sonhos. braços enfeitados nos outros e um sorriso que, de propósito, esquecia a semana vindoira.
7.21.2009
7.19.2009
7.18.2009
E é o que é...
O amor é um fogo-fátuo
que se encanta no engano da luz,
e propõe entendimentos inábeis
só pelo preliminar da proposta;
tal como na queda
das pétalas,
ou dos graves,
u
m
a
a
u
m
a
consomem-se as intenções
antes do apego
e nenhum caule conquista
o eterno sabor dos dias.
que se encanta no engano da luz,
e propõe entendimentos inábeis
só pelo preliminar da proposta;
tal como na queda
das pétalas,
ou dos graves,
u
m
a
a
u
m
a
consomem-se as intenções
antes do apego
e nenhum caule conquista
o eterno sabor dos dias.
Vazios...
Uma casa vazia espera o meu regresso d'armas,
trago os despojos com que reivindiquei a vida,
e a recordação eterna da solidão
acompanha os meus passos cansados.
Se ainda me abrisses a porta,
se deixasses solto o trinco de então,
abraçaria as nuvens mais distantes
(nos instantes)
que precedem o beijo da chegada...
trago os despojos com que reivindiquei a vida,
e a recordação eterna da solidão
acompanha os meus passos cansados.
Se ainda me abrisses a porta,
se deixasses solto o trinco de então,
abraçaria as nuvens mais distantes
(nos instantes)
que precedem o beijo da chegada...
7.13.2009
7.12.2009
Ignorância
não sei atravessar sozinho o rio
não sei abarcar um novo desafio
não sei gritar um poema de voz
quando os dois juntos somos sós
não sei do teu olhar a cor
perdi da memória o valor
só sei ser triste ver escuro a ausência
e não ter versos nem arte a tal ciência
(9.05.2009)
não sei abarcar um novo desafio
não sei gritar um poema de voz
quando os dois juntos somos sós
não sei do teu olhar a cor
perdi da memória o valor
só sei ser triste ver escuro a ausência
e não ter versos nem arte a tal ciência
(9.05.2009)
Querendo crer
Deixei de crer no assobio dos búzios,
os que antes me ditavam o aconchego,
enrolados na ternura andaluz
de uns olhos da cor do medo.
Perdi a fortuna no débito da espera
e os cabelos brancos
pintaram-me o coração de passado.
Era falsa a história
- é o que digo aos búzios (agora);
mas choro mais
por ter de lhes confessar.
fora o meu ouvido sedento
que a aldrabou.
(25.05.2009)
os que antes me ditavam o aconchego,
enrolados na ternura andaluz
de uns olhos da cor do medo.
Perdi a fortuna no débito da espera
e os cabelos brancos
pintaram-me o coração de passado.
Era falsa a história
- é o que digo aos búzios (agora);
mas choro mais
por ter de lhes confessar.
fora o meu ouvido sedento
que a aldrabou.
(25.05.2009)
7.11.2009
7.05.2009
De manhã, dez mil anos depois
De manhã,
saíamos antes das ervas bocejarem o orvalho
e percorríamos o caminho intransponível
do nosso olhar cruzado.
O amor é, o amor é...
- dizias que ouvias as papoilas
e eu teimava todas as hipóteses
que se podem pendurar no sim e não dos málmequeres.
O azul do meio-dia
ria-se dos nossos pés cansados.
E nós riamos do riso do azul.
Não dávamos conta que já era outro dia,
uma outra era,
um tempo passado
que voltará a escutar-nos
daqui a dez mil anos.
(27.04.2009)
saíamos antes das ervas bocejarem o orvalho
e percorríamos o caminho intransponível
do nosso olhar cruzado.
O amor é, o amor é...
- dizias que ouvias as papoilas
e eu teimava todas as hipóteses
que se podem pendurar no sim e não dos málmequeres.
O azul do meio-dia
ria-se dos nossos pés cansados.
E nós riamos do riso do azul.
Não dávamos conta que já era outro dia,
uma outra era,
um tempo passado
que voltará a escutar-nos
daqui a dez mil anos.
(27.04.2009)
Fios...
poderia ter escrito o que
nem sei de ti,
apenas autorizando as veias
a arrastar-se no sangue emprestado
à morte
suspensa entre o primeiro e o teu último choro.
frutos da ausência,
às vezes somos espaços cruzados
nas almas de espanto;
sacramentos de manhãs nascituras,
eterno fio de desejo
que nunca rompe,
nem nunca enovelará.
(27.04.2009)
nem sei de ti,
apenas autorizando as veias
a arrastar-se no sangue emprestado
à morte
suspensa entre o primeiro e o teu último choro.
frutos da ausência,
às vezes somos espaços cruzados
nas almas de espanto;
sacramentos de manhãs nascituras,
eterno fio de desejo
que nunca rompe,
nem nunca enovelará.
(27.04.2009)
Tempo...
olho o espelho e pergunto-me
se sou eu o embalado
naqueles rebordos oxidados da vida.
uma ruga compete
com um lenho do reflexo
e o nariz retorce-se
num movimento cómico.
há trinta anos
o espelho dizia loucuras de rapaz
e brilhava em
cada sábado de febre
com a palavra eternidade
a segurar-se dos bagos cristalinos
da água sobrada do banho.
a toalha branca
encolheu uma geração
e viu partir tantos outros, eternos.
o perfume tem um nome mentiroso
como o é toda a revoltada ousadia.
um dia
talvez o espelho sobre
para me contar os traços
mas não sei quais.
(29.04.2009)
se sou eu o embalado
naqueles rebordos oxidados da vida.
uma ruga compete
com um lenho do reflexo
e o nariz retorce-se
num movimento cómico.
há trinta anos
o espelho dizia loucuras de rapaz
e brilhava em
cada sábado de febre
com a palavra eternidade
a segurar-se dos bagos cristalinos
da água sobrada do banho.
a toalha branca
encolheu uma geração
e viu partir tantos outros, eternos.
o perfume tem um nome mentiroso
como o é toda a revoltada ousadia.
um dia
talvez o espelho sobre
para me contar os traços
mas não sei quais.
(29.04.2009)
6.30.2009
6.25.2009
6.23.2009
Só de passagem, sem reparares
Talvez um dia possas
ler este trilho de sopro
que deixa letras fingidas
onde inventaras esquecimento.
Até o impossível é mortal,
mesmo temporário.
E chorarás sem lágrimas
o castigo
de não teres aberto os olhos
ao meu regresso.
ler este trilho de sopro
que deixa letras fingidas
onde inventaras esquecimento.
Até o impossível é mortal,
mesmo temporário.
E chorarás sem lágrimas
o castigo
de não teres aberto os olhos
ao meu regresso.
6.21.2009
21 de Junho
choravam as estrelas, sabendo que o dia era longo, tão longo que ficou a ser o mais comprido. cheias da luz que lhes apaga a própria, resolveram rumar a sul.
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