7.05.2009

Fios...

poderia ter escrito o que
nem sei de ti,
apenas autorizando as veias
a arrastar-se no sangue emprestado
à morte
suspensa entre o primeiro e o teu último choro.

frutos da ausência,
às vezes somos espaços cruzados
nas almas de espanto;
sacramentos de manhãs nascituras,
eterno fio de desejo
que nunca rompe,
nem nunca enovelará.
(27.04.2009)

Tempo...

olho o espelho e pergunto-me
se sou eu o embalado
naqueles rebordos oxidados da vida.
uma ruga compete
com um lenho do reflexo
e o nariz retorce-se
num movimento cómico.
há trinta anos
o espelho dizia loucuras de rapaz
e brilhava em
cada sábado de febre
com a palavra eternidade
a segurar-se dos bagos cristalinos
da água sobrada do banho.
a toalha branca
encolheu uma geração
e viu partir tantos outros, eternos.
o perfume tem um nome mentiroso
como o é toda a revoltada ousadia.
um dia
talvez o espelho sobre
para me contar os traços
mas não sei quais.
(29.04.2009)

6.30.2009

junho 2009

que mês este que assim parte, deixando tantos partir.
em íntima análise

6.25.2009

Assim se (o) querendo... Charutos

6.23.2009

Só de passagem, sem reparares

Talvez um dia possas
ler este trilho de sopro
que deixa letras fingidas
onde inventaras esquecimento.
Até o impossível é mortal,
mesmo temporário.
E chorarás sem lágrimas
o castigo
de não teres aberto os olhos
ao meu regresso.

6.21.2009

21 de Junho

choravam as estrelas, sabendo que o dia era longo, tão longo que ficou a ser o mais comprido. cheias da luz que lhes apaga a própria, resolveram rumar a sul.

6.19.2009


6.16.2009


6.14.2009


Sabíamos que a manhã viria
mas preferimos permanecer de olhos presos
com o peito enrolado
deixando que o mar respire
as nossas canções antigas.

Um pescador
empurra o branco côncavo
largando um rasgo
no cinzento marinho.

Uma temerária lula
canta canções de amor
e entra na rede.

Ninguém dirá
que morreu de paixão,
tal como nós vivemos.

6.13.2009

retorno, eterno retorno

Deixávamos na areia os calcanhares corrompidos
do alcatrão da cidade
e as ondas vinham em formação
esfregar o amarelo com bolhas de espuma
até se diluir por completo
o desperdício com que
oleávamos as canseiras dos dias.

Olhavas-me no repouso das horas
respirando plenitude a compasso
sem uma palavra
sem um gesto a mais.

Ao fim da tarde deixavas
os lábios nos meus,
as gaivotas grasnavam inveja
e eu dizia ao mar que voltaria.

Séculos depois, regresso
condenado à lembrança
que confunde as cores
que imagina os sons
que se perde
no horizonte do retorno.

O azul cheira-me a verde-cinzento,
a manhã teima em não se levantar
e, de encontro ao vento,
encontro um búzio
a chilrear amores.

Corro dele,
sei que guardou a nossa história
e o vento não consente
essa memória.

6.11.2009

talvez ainda faça sentido um mundo virado; depende do olhar...

6.07.2009

fingido choroso

e de que vale acrescentar palavras a este tempo, mestre de insinuações, que lança risos solarengos na semana de trabalho e depois, como um pecador arrependido, chora angústias pelo domingo fora
Coimbra e as suas torres (não-gémeas) da margem esquerda

6.05.2009

São, são, Senhor... até porque o são na margem esquerda do mondego

6.03.2009

Na admiração do escuro

Não digas nada, agora:
o sol está a despedir-se
e usa o seu rito pessoal;
com o calor do dia
podes libertar ânsias
a que não correspondo.
Deixa que a noite tropece nos seus laços
e nos enleie de sentimentos;
dos mais pretéritos
aos mais presentes;
vai convidar-nos a espreitar a lua,
entre um beijo consentido
e outros gestos
perdidos na admiração do escuro.
(21.02.2009)

5.31.2009

final quente

e o maio, de repente, lume. parece desesperado na sua falta de tempo.

conjugação verbal

olho o sol no pique do dia
e rogo ideias, palavras, cores
quero gritar os meus amores:
silabas inteiras, e fantasia.

não suo ao sol. só os calores
com que traço e escrevo poesia
são lembrança do teu cristalino olhar
forma recatada de conjugar o verbo ____ .
(17.05.2009)

as tuas mãos são céu

as tuas mãos são a flor
que deixa no solitário a ideia do ramo
talvez nem seja amor
mas é sol por inteiro, todo o ano.

as tuas mãos rasgam-me o corpo
e eu, absorto
entrego-me por inteiro ao desleixo
de calar o que te deixo.

vamos
(anos e anos)
respirar o eterno dos dias
(tristezas, alegrias...)
tu e eu
somos o mundo todo
(a seu modo...)
somos céu.
(17.05.2009)

5.30.2009

azar

bem me parece que não há maior azar que o da praia. a luz ilumina todas as desgraças e nem o mar cobre a desventura,

5.20.2009

mesmo assim, é sempre o céu azul, a luz brilhante
e infinita que se desvenda no teu rasgo

voando

o meu rumo é tão incerto como a certeza do infinito
e levo as palavras que vós abandonastes
no sortilégio das ondas.
só porque vos recusais ao vento,
o meu insano grito é escuro silêncio
nos ouvidos pecadores.
o meu destino não é, salvo
o ter sido
e aparto-me das admirações conservadoras
com que quereis repristinar o antigo.
gasto os últimos alicerces
para burilar plumas de Ícaro
e poder ver-vos,
na trôpega glória do mundano,
desde os guindastes das pontes.
sei não chegar mais alto
que os badalos dos sinos,
preso nas recordações
que me carregam o fardo.
quem dera ser leve!
voar
e só lançar a mão
aos que nunca me conquistaram.

5.17.2009

alegrias findas, antes de renovadas

agarro ainda esta lua de fingir, não quero ver partir
o dia. golo a golo, lentamente, lá se foi a alegria
na garrafa. vou telefonar e vou anunciar
que há mais pró ano. a vida não tem engano.

5.16.2009

posso (mas com as palavras)

com as palavras pinto um universo infinito
e no poema posso sonhar-te inteira em azul
porque invento a realidade toda
(tão real como a restante);
mudo a posição do sol
ou desta cadeira de madeira;
mudo o teu olhar
- já de si tão belo –
e acrescento-lhe o meu. eu sou
o rei dos meus ditongos
o astro do meu verso
E NENHUM MILHÃO ME OBRIGARÁ
a inventar um som ainda mais bonito. posso
escrever o escuro com tinta luminosa
(poesia ou prosa)
e soletrar todo de amarelo
o ar triste do choro que te invento. olha
que posso dizer para não olhares
e com uma mentira tão verdadeira
como uma real falsa aparência
simular que te estou a dizer não.
posso pontuar a tua vida inteira
com vírgulas às carradas,
das que me ordenaram a pausa. paradas. e
exclamo
- assim o querendo –
que nunca serás a mesma
como nunca deixaste de ser.
com esta tinta até posso
dizer que perdi o poder,
dizer que já não sei escrever.

5.15.2009

noite

corre nas veias, nestas deixadas no corpo, nada mais que o sono que o dia acrescentou ao sobrante de dias anteriores. hábitos que a noite só realça por costume, sem qualquer vício.

5.11.2009

superioridade teimosa

deito-me. ao som de uma melodia gasta, que os condóminos, só porque num piso mais cimeiro, teimam em galinhar pelos espaços comuns, entrando até nos meus sossegos. sempre com essa vã ideia da superioridade das escadas e da glória do clássico. teimosos.

5.10.2009

virá

virá o verão, virá. as cigarras vão cantar timbres de festa e encher o vento de desejos contra o frio. as formigas andam a preparar os deveres, mas tem que ser.

fantasias

m. deitava as rédeas à vida com a dedicação de um enlevo e a teimosia dos santos. gostava de olhar o mar e contar os cardumes. mas a sorte, qual rede, apanhava-a, vezes e vezes, num enredo curto. curto às suas liberdades de fantasia.

5.08.2009


5.05.2009

sonhos de primavera

vou-me deitar numa janela fresca. tão fresca de só sonhada. acordarei resfriado, de tanto sonhar.

quem diria...

inesperado, torra o dia e eu. diabruras de um tempo teimoso que goza incautos.

5.04.2009

cartolas de futuro e tantos sonhos ainda por abrir

5.02.2009

o gosto que salivo é o da espuma;
todo em ti me cerco de mar
e nas formas do teu corpo, uma a uma
dito palavras impossíveis de inventar
que tamanho tem o gesto do meu gesto,
se o faço a ti em jeito de louvar?
e dos outros que te amam eu protesto:
tenho a vantagem de respirar a mar.

4.26.2009



4.25.2009


S
E
M
P
R
E

4.22.2009

... o amor aqui defronte

4.19.2009

à espreita de quê, gaivota, se conheces o mar e tudo o que o rodeia?

4.18.2009

adiamento

com uma serenidade melancólica, tarde cinzenta e olhar turvo, pingam do céu as adiadas esperanças de um verão de abril.

4.16.2009

à espera que o dia se ilumine

4.13.2009

rosas são, se assim as virmos

4.12.2009

por castigo

vou-me deitar à sombra da tua espera. enquanto assim, passam em redor gritos de pássaros e alheio-me do mundo. só pelo castigo que lhe deixo.

é claro

o azul do mar, perto de maio, finge-me os olhos com cores tingidas de espera e sopra faúlhas de sal que me salpicam o tempo. no gosto do sol que se ilustra em tons de advento, é claro.

Páscoa junto à respiração do mar

e (ainda) um pouco mais de (muito) azul

PAZ CO'A legria da luz de Abril

4.10.2009

tomba a luz e o dia, deixando o quente do fogo no nosso olhar:
calor da certeza que amanhã virá nova luz

Quando se tomba

olhei o céu num gesto involuntário
quando uma estrela tombava do seu ritmo
e o teu olhar
recuperou-me o pensamento
onde imaginava cavalos alados
em trajectórias de circo. Vinte
anos são dois instantes
e gastei-os inteiros
a descobrir o som do infinito.
o teu rosto calou-se,
o teu olhar caiu
o teu sorriso perdeu-se
atrás de uma boca vermelha. Vinte
dias chorei sem lágrimas
a ausência de contrastes,
do atrito onde pude perder a mão,
e tu calaste-me o peito. O
infinito era só não ter medo
que os dedos se desentrelaçassem
à passagem de uma nuvem carregada. A
fé é um percalço intemporal. Como
um qualquer outro.
(29.03.2009)

4.07.2009