5.18.2008


deixa

Deixa que eu beije os teus lábios rotos
ansioso os vejo, carentes como poucos
deste reencontro pintado de vermelho.

Antes de te chegar, treino-me ao espelho
Antecipando receio de me imaginar velho

Os teus são só os meus, que ali emolduro
não vendo mais que meus se teus procuro
mas insisto em treinar-me pró reencontro
acreditando assim que teus não desaponto

Amanhã, muito cedo ainda, partirei
carregando juventude e longo estágio
e esses lábios que aos meus encostarei
são dos do espelho a carne de plágio.

Afinal, é apenas nosso o que expandimos
fingindo e sonhando ser pertença de outro
e tudo isso, nosso e não, ainda repartimos
deixando-nos, a nós, pedaços de tão pouco

em memória

Tantos os anos que lá vão, nem os contei
Mas vejo ser muito o tempo a ti roubado
Ou, talvez, descrente, sequer eu reparei
Que continuarás em Céu mais abrigado.

Como não entendo a vida que nos dão
Ainda menos entenderia uma vida outra
Deixo só uma palavra pobre de gratidão
Por aceitar que nos guardes aquela Porta.

No mais, muito mais que pouco digo
Manda a saudade que o verbo traça;
Só na aparência não estamos contigo
Só na pequenez a morte é uma desgraça.
Um rasgo de lembrança desfaz-me a atenção
Assim que a pergunto para os deveres do dia;
Fica-me o serviço torto, ignoro-lhe a primazia
(preso na ideia de seres mais que tentação).

Sai-me da frente, que eu não posso
Perder-me nos devaneios de te ver.
Não escrevo, não falo e nem ouço
Porque só penso na forma de te ter.



meg

Um sentimento ambíguo no olhar partilhado
Uma espécie de perigo vinda de todo o lado.

Queria dizer, não avançar a qualquer jeito
Deixavas perceber que não abririas o peito.

Um jogo escondido no olhar aberto
O gozo perdido de te ter por perto.

Horas de embaraço e deixei-me estar
Se não sei o que faço, faço por parar.

E, num instante disse, Olá Margarida
Flor que odoras de estares tão querida.

d' ânsias embriagado

Verdadeiramente, custava-me a ver aquela
Insistência de m’avisares sempre do perigo
Seguindo-me os passos como numa sequela
De um filme mudo, passado e muito antigo.

Se queres dizer, corro riscos, quem não
Os corre, nesta vida airada e d’aventura
Quando nos cabe, dia a dia, essa opção
D’escolher entre desatino e compostura.

Deixa estar assim, d’ânsias embriagado
Na corda bamba entre sarcasmo e siso
Pior seria se me tivesse aí desfeiteado
D’omissões que enganei não ser preciso.



tangerinas

o cheiro das tangerinas parece azul celeste, se o recordo. memórias de bibe e joelhos marcados de contarem as escadas de granito.

contorno

pareceu-me ver, assim que larguei o leito, um contorno diferente do dos dias iguais. fiquei na dúvida, entre a imaginação, uma alma pesada, ou...


caras de ver

Dizes que estou, logo hoje, de melhor cara
E eu sei que nem és budista para acreditar
Nessa mudança que a cada dia nos separa
Da lembrança de em cada dia ainda mudar

A cara é d’ ontem e antes, certamente
E será a minha daqui ao fim dos dias
Salvo se lhe descobriste, num repente
Apagada imagem de antigas alegrias

Ou então, sei lá, dormi anos a fio
E a idade confunde-me a memória
E nem consigo vencer este desafio
D’emparelhar a cara com a história

Como quer que seja, uso a que cá tenho
Que será a que vês, mesmo sem eu a ter
E seja ou não seja, com ela eu me amanho
Porque só me serve a que tu quiseres ver.
Deixa que te revazie o espaço d’um desejo
Que deixara à socapa no teu coração
Pois preciso de renovar um beijo prometido
E não tenho sítio onde o guardar cuidado.


enfados

Enfada-me muito a loucura da pureza
com que nos ostentam o dever de castidade
quando nos explicam que a deles é a verdade
e que já nascem a saber definir beleza.

Agora tudo é pecador e desgraçado,
formas ignóbeis de morrer mais cedo
o que tem valor é o valor do medo
e grassa a desgraça ao ser-se engraçado.

Fumar é crime de lesa-magestade
comer é um vício primitivo
e se quiseres continuar vivo
reduz o sexo a menos de metade.

Pensando bem, o risco existe a sério,
já nem Jesus quer ficar na fotografia;
a morte já não tem qualquer mistério
e à entrada do céu faz-s’uma radiografia.

Se chegamos cheios de saúde e alegria
o São Pedro certifica-nos os pulmões,
confirmamos ter a alma bem vazia
e ter deixado no SNS os finais tostões.

Faziam-se testes de línguas, antigamente.
Agora não, tudo salta do clínico boletim:
Quem tem saúde, esse vai em frente
Os demais terão um desgraçado fim.


esquecer

dormia devagar, cheio de uma monótona quietude. tentava esquecer lembranças deixadas em dias a fio, recordações inventadas antes de sonhar.

neve

só conheço a neve de cor branca. às vezes espreito-a com olhos de outras cores e espero o dia diferente.

noite

a noite não é sempre branca, agora o sei. e conforme-me com as cores que escolhe para preparar a madrugada.

pássaros

os pássaros atravessam as nuvens como fronteiras incertas de países. voam como quem se desinteressa da sorte e, tantas vezes, regressam.

5.17.2008


Dá-me um xaile de Agosto
Para me engolir o frio
Que não é o calendário a defini-lo
Mas o desaparecimento do teu gosto.

confuso

Cai uma tarde de Inverno rouco,
como as palavras que não te diga,
perdendo a voz, pouco a pouco
e o em mim ter-te, minha amiga.
E nem já te digo, conformado
que o risco de perder-te é abafado.
Que, afinal, era perder-te por aí,
igual a te não ter em pensamento:
viver sem pensar é não pensar em ti
e confundir o infinito no momento.

como enfeitar as raparigas

Aborrece-me o som dos que respiram fundo
Como se, duma vez, aspirassem o mundo;
Aborrece-me o riso dos que vendem lotaria
Como se, em pacotes, comprássemos alegria.

É tentador pensar poder ser outro o mundo
Aquecer a Islândia com um simples aceno
E por arte mágica, de condão, num segundo
Regar todo o Saara com as águas do Reno

E fazer com que os homens fossem bons
E as mulheres por igual e muito amigas
Cada qual pintando a vida nos seus tons
Como o poeta gosta d’enfeitar as raparigas.

jogar às escondidas

Barras-me num limite fluido
Aí envolves o a que não chego
Simuladora transparência, vidro
Tento de evaporar o mútuo medo

Se nos chegarmos um pouco mais
Ainda que o receio domine o gesto
Já acredito que acertei, e tu não sais
Porque aceitas que a vida vale o resto

Jogamos desse modo às escondidas
Entre todo o amor e o amor p’ra ter;
Mistura de cautelas e de desmedidas.
Dúvida tanta entre o querer e o poder.

5.16.2008

cérebro

se o cérebro é cinzento e está fechado numa caixa, estranha-se que tenha ideias luminosas.



5.15.2008

livro

acabei de ler e regressou-me à lembrança a brancura do olvido. o livro tinha tudo o que já esperara e não sei que acrescentos podia imaginar.

nuvens

as nuvens enfeitam a paisagem e fico com a ideia que escondem qualquer coisa. formam figuras que largam significados. e tormenta-me não os saber traduzir

protestos

às vezes reclamas só porque te chamo amor e não te inquieta se soletro o teu próprio nome. fico sem saber onde anda o erro. sempre pensei que era aquele o teu verdadeiro.

5.11.2008


Sonho só um reflexo de luz
e fico preso, ai Jesus;
rio do choro da tua saudade.
O mar dá-me essa liberdade.

amores de espuma

Escassas as palavras que se confundam
contigo e renovem esperanças perdidas
de quando aceitávamos todo o mundo
como luz a incandescer as tristes vidas.

Tínhamos aí quinze anos e liberdade
era Agosto, o sol queimava os corpos
nenhum saberia dizer, nem a saudade
nem a oração libertadora dos devotos.

Só nos entregávamos à inconfidência
dos beijos ressuscitados além da duna
depois de castelos d’areia em paciência
de conseguirmos o cimento que nos una.

Deixámos no mar a promessa inteira
de nunca esquecermos essa ousadia
que era a cresta agreste da soleira
nos lábios humedecidos em fantasia.

Entrelaçámos mãos em compromisso
eterno como o fulgor dos tais abraços
numa fé ainda maior que a do noviço
que a Deus entrega ambos os braços.

No Verão seguinte não te vi na onda,
senti que o desespero tinha chegado,
rogando que a mágoa, bem profunda
tivesse o mesmo desgosto do teu lado.

Mas não, não sei sequer se foi assim
porque aprendi o timbre da saudade,
fiquei sozinho, mais chegado a mim
mesmo que creditado em liberdade.

domingo

que o domingo prossiga assim, logo depois de um sábado, vai que não vai: aceita-se. mas custa saber que antecede uma segunda, gorda de semana inteira.

desperta-se em mim

Desperta-se em mim mesmo uma
Sonolência teimosa, deixa-me sem
Maneiras, parecendo uma pluma
Esvoaçando ao vento que nem
O aconchego da brisa reflectida
Nas nuvens dormentes, como
Se fosse vencível a partida.
E, depois, uma a uma eu somo
As horas que me deixo alheado
Como se um bocado de tempo
Não contasse, como se o vento
Me arrastasse, levando a vontade
A qualquer longínquo pecado.
No fundo, deixa-me só metade
E eu parto quase acordado.

as tuas palavras

Contorno suavemente as tuas palavras,
A socorrer-lhes o (meu) sentido íntimo
Mas não tenho atrito e elas são vidradas
Deixa-me a dúvida de sentir o que sinto.

Apalpo o fôlego que como som lhes sobra
E tento escutá-las só com os gestos da mão
Afago-as mais ao peito, ponho-me à prova:
Se é o teu ou o meu o respirar do coração.

Mas as palavras esgotam-se no escuro
E eu confundo cada um dos corações;
Aproveito e digo amo, num sussurro,
Como quem soletra as suas orações.