4.12.2009


PAZ CO'A legria da luz de Abril

4.10.2009

tomba a luz e o dia, deixando o quente do fogo no nosso olhar:
calor da certeza que amanhã virá nova luz

Quando se tomba

olhei o céu num gesto involuntário
quando uma estrela tombava do seu ritmo
e o teu olhar
recuperou-me o pensamento
onde imaginava cavalos alados
em trajectórias de circo. Vinte
anos são dois instantes
e gastei-os inteiros
a descobrir o som do infinito.
o teu rosto calou-se,
o teu olhar caiu
o teu sorriso perdeu-se
atrás de uma boca vermelha. Vinte
dias chorei sem lágrimas
a ausência de contrastes,
do atrito onde pude perder a mão,
e tu calaste-me o peito. O
infinito era só não ter medo
que os dedos se desentrelaçassem
à passagem de uma nuvem carregada. A
fé é um percalço intemporal. Como
um qualquer outro.
(29.03.2009)

4.07.2009

3.21.2009

dia da poesia

guardo só a lembrança do olhar lavado. aí, onde as palavras não podiam inventar sonhos novos. as palavras ficam entregues à grandeza dos poetas, esses que têm um dia à dimensão do mundo. resta-nos o beijo que ficou por dar e o silêncio fala-nos desejos incumpridos. intensos.

3.15.2009

as cores (reais) de um horizonte em queda de tarde,
na descida de Castro Daire para S. Pedro do Sul (14.03.09)

3.11.2009

primavera

sopram ventos amenos do final da rua. as moças aventuram liberdades de traje. incentivam a vontade em falta da estação futura.

3.09.2009

tic-tac

descobri (grande coisa!...) que cada pancada do relógio é uma a menos nesta inteira vida. há falta de melhor revolta, talvez deva amar os digitais.

3.05.2009

desatento

só ontem, noite de chuva e uivos, desci o caminho para março. teimoso em não acreditar nos meses encolhidos.

2.26.2009

mas que...

e aquela cabra sempre teimou,
escondidos nos umbrais dos sonhos,
gritar à nossa abafada melancolia
as sirenes gastas dos regulamentos

2.22.2009

nos ramos de teus abraços

"a cegueira é andar por uma terra que só eu conheço"
podendo enlera-me nos ramos
dos teus abraços,
que os repiso de memória. o
teu rosto continua a ser
o rio onde banho
as mãos e as saudades,
onde refresco da canícula
que a tua ausência me deserta.
barro é um ente solidário,
quando pergunto o teu nome,
e, se mais não pode,
deixa que reformule
os teus lábios mansos
e que o resto do teu corpo
acompanhe
os contornos do mundo.

(19.02)
A frase inicial é de Rui Nunes,
Que sinos dobram por aqueles que morrem como gado

revolução

os anos passavam um a um, teimosos como se o calendário fosse um ditador insensível. precisava-se uma revolução temerária.

indesejo

vínhamos num ardente desejo de reencontrar o deixado, mas a noite caiu apressada e o escuro arrefeceu a vontade.

2.21.2009

sê, ao menos

Sê, ao menos, hostil,
que a brandura inquieta.
E não me permito continuar
devassado na tua rectitude.
Grita -
só para mim -
algum desassombro
que me derrube por inteiro;
não quero ficar
a meio-caminho do fim.

(19.02)

deixa em branco

deixa em branco a cópia
dos compromissos que te lavrei.
também eu suplico
uma transparência
que me recupere o gesto
de abarcar o mundo,
como nos pretéritos das searas,
contra os espantalhos
que nos corrompem
promessas do para-sempre.

(19.02)

2.14.2009

dia dos

a correr atrás das gaivotas, desenfreados, esperávamos que a lua viesse em socorro de companhia. o mar fazia ondas de aplauso e sorrisos de espuma. incentivos a um beijo demorado.

2.08.2009

inverno

ainda respiro, depois de todas estas horas mortas, faúlhas do teu perfume. podia ser a saudade, mas não sei se é apenas este rigoroso inverno, apertando-nos em humidade.

2.06.2009

entre vista

sei que nenhuma palavra acabou por ser dita. fomos olhando um no outro e nada havia a dizer entre o que víamos.

2.03.2009

mentiras de inverno

caia um sol a pique e toda a cidade se abrasava no bafo tórrido que se esplanava ao longo dos cafés. homens e mulheres sacudiam-se, e repudiavam os gelados constantes que os mais pequenos exigiam. um calor assim parecia mais que desusado.

2.02.2009

resta uma hipótese

tombo a cabeça de encontro
ao algodão perfumado
onde tinhas deixado
os traços loiros do teu cabelo.
procuro o odor do mar
(porque te sinto salgada
na escuridão das noites).
virás - ou não - recuperar
os teus sinais.
e basta-me, por tanto,
essa hipótese luminosa,
capaz de vencer o dia
em propósitos de aconchegar.

1.30.2009

contradições

nem valia a pena correr, desafio perdido sem esforço. o tempo vinha em sentido contrário e por atalhos que falseavam a idade. valia mais sentar-se, esperando que a juventude deixasse a ousadia da concorrência. mas, como os outros, acabou por se galvanizar, iluminado que o risco da liberdade suplantava o sossego da espera.

1.27.2009

noite

o risco do escuro é ver. porque foge à normalidade. e consta que assim mesmo são calculados os riscos.

1.25.2009

ritmo

cai o domingo com a teimosia do costume. assim nasceu, escassas horas pretéritas, com teimosia igual. dizem que voltará daqui a uma semana. é de crer que sim, louvando-nos em assim ter sido.

Vinde

Vinde. Na correria do desejo
e só para vos saberdes
irmã do infinito.
Rasgo as portas
que vos fechavam
e penduro-me
nos umbrais cerimoniosos.
E vos recebo.

Tisnado em sal de castigo,
crestado no mar,
incerto de merecer
a dádiva que é rever
os olhos com que partistes
há eras,
quando os meus choravam
a adivinhação do futuro.

1.23.2009

leituras

li que há ainda versos por escrever. era um poema que se apresentava cheio de humildade. digo assim porque pensava que um poema era o mundo todo. mas fiquei a saber que há muitos mundos neste mundo todo. gostei de ler.

1.22.2009

grades desfeitas

entre as grades que a teimosia da chuva ajuda a fortificar tento soletrar a palavra certa. a rouquidão do inverno só uma me consente. nem a dizendo, vejo que as nuvens se dissipam num movimento carinhoso e, ao longe, desenham em flocos o teu nome. era o que eu queria dizer.

1.19.2009

avanço

como. porquê. impertinências que se agarram ao caminho como lama. mas, como um senhor dizia, sem atrito permaneceríamos parados.
ainda vale a pena dar o braço ao mar e sonhar que os pés aguentam acompanhar-te até ao infinito. sem protestos, sem um grito.só com o gosto do teu olhar.

1.18.2009

o estranho caso

pensei na ideia de ir enovecendo. claro que não há a palavra. as palavras têm o seu modo de utilidade. contaste-me o filme, história num conto antigo de um escritor maldito. fiquei ciente do pânico. não é o tempo que recua, mas a vida. e isso é bom, mas tem prazo certo. acho que a incerteza é a nossa grande conquista. hoje deu-me para isto.

1.17.2009

quem esconde a luz e quem a dá. quem recebe ou quem reparte. quem a simula ou dissimula. quem a rejeita ou a goza. luz e quem.

1.16.2009

cem pássaros a executar liberdade sem comentários
sigo. sigo-te. mesmo que a cada passo canse o passo. temo que a tua euforia te despenhe, ainda que a saber que isso é um custo da liberdade. mas então voa, tens asas bastantes a essa aventura.

1.15.2009

letras

uma a uma, como quem disseca uma hipótese renovada, entregas as letras que formarão o enlevo. de a a r, juntas mo como outras e deixas ficar. para que eu repare, distraindo-me da distracção que quase te esquecia.

certezas

as palavras certas deixaram de ser uma garantia de acerto. ficam as ideias do que podia ser dito. velem o futuro. e isso acomoda-nos.

conflito

espero que o desacordo seja só sobre o excesso do gosto. gosto de sentir a desmesura do encanto.

1.14.2009

nos intervalos da dureza puída da pedra, como um cimento que se sente, transparece o talco da espuma alva e persistente.
não sei se é teu, lisboa, o amarelo que o sol te empresta e te alegra. talvez te pertença a sombra que permitirá acender as luzes na noite. sol e sombra, enfim, sempre são os teus mesmos desejos.
o verde é a saudade do tempo em que se pulavam as ramagens e se ultrapassavam as prisões fingidas de muros, antes de se enfeitarem os joelhos traquinas com as pintas vermelhas do mercúrio.
escondes-te aí, envolto nessa liberdade que o mar te entrega. grande rapaz, um dia brilharão em teus olhos de homem as cores das nuvens e do vento e galgarás o oceano de desejos puros.

aparências

cai um nevoeiro que confunde noite com escuro, e escuro com ausência de luz. um jogo de conceitos irrelevantes que me confunde, e me confunde no jogo de aparências que uso para melhor te imaginar.

1.13.2009

mãos

entalam-se as mãos com a desculpa do frio que percorre o corpo. desculpa vã. apenas demandam sofregamente a palavra.

1.08.2009

2009

quando lhe ligava, dizia-me esperar serenamente o seu momento próprio. foi isto já no ano pretérito, mas parece-me de agora mesmo.

ano novo

não entendo estas contas de agora. estive incontáveis dias à espera. meses e meses sem notícias dele. doze, penso eu, numa espera desmedida. afinal, chegado que é, tudo me parece igual.

1.07.2009


simulante

o sol salpica reflexos nos telhados abatidos de gelo. simula uma primavera inoperante, como se o parecer levasse a melhor à realidade do frio.

veio para ficar

e faz bem teimar. tem o direito dos outros, de todos os que já foram. mais que os que virão.

outro ano

e não é que veio mesmo. atormentado de apelidos e descrença, mas veio. no segundo-instante (não, no segundo instante, que alguém inventou um segundo mais) chegou-se ao tempo presente. sem rodeios. só com os lamentos que lhe ofereceram.