3.20.2010

se o regresso...

o que separa a última vez da primeira
é o regresso,
não mais que o risco da semelhança;
a espera da confirmação
nem define o acto. e
o futuro não vale, por enquanto.
olhamos os olhos alheios
cuidando adivinhar a impossibilidade
de trocar a alma
- como quem diz -
de sentir pelo outro.
se o mundo é um traço contínuo
a segurar os desejos
(como as molas na corda da roupa)
é uma hipótese por experimentar.
voltamos a ficar sós,
mundo inteiro.
25.11.2009.

2.27.2010

antes do silêncio

vinco, no resguardado resguardo do teu segredo, as palavras imortais que sempre anteciparam o silêncio. e, sozinhas, inventaram benefícios à mudez.

elegia

todo o poema, como todos os sonhos, são uma elegia. como se vem a confirmar a cada momento: perde-se, só por instantes, a noção do presente. mas, sabemos todos, que o futuro nunca existiu.

perdido

acho quer perdi o teu poema no lixo do sexto piso, quando troquei os papéis de rascunho pela versão ficheiro. começava assim "o meu coração é um barco".

2.18.2010

Confesso...

Confesso que quando escrevi
o primeiro poema, copiei
os teus olhos. Senti
qu' escrevia o que não sei.

A ruga que ficou com m
(de amor) foi descuido só meu
como o homem do leme,
a trocar o monstro pel'o céu.

(27.04.09)
desvendo o repouso
na magnitude
de uma apropriação nova:
a palavra foi descoberta

e o dia já não cai
a noite não vence
o tempo parou,
parou.

(20.05.09)

Como?


Como havemos de tocar
tão levemente
a mão que teve o propósito
e ateou o fogo:
cândida aurora do provir inacessível.

Penumbra

há sempre uma penumbra de egoísmo
que nos barreira de "deus"; por mais
que o construamos mais próximo.

esse sino tão terreno
que nos repica os caminhos
distraídos do enlevo.

esse tambor que nos chama
aos comprometimentos do mundo.

perdemos (?) o amor no sexo
e este na ofensa
e esta no crime.

de degrau em degrau
baixamos...

como se o eterno fosse estar
aterrados, enterrados, distantes
do ser que nos é próprio.

(8.05.2009)

quem dera...

quem dera ter um nome a dar-te
um fruto que te colhesse,
perdendo sabor o tempo infindo,
sem desgosto d'época.

quem dera pintar as papoilas
da cor do arco-íris.

(8.05.2009)

1.31.2010

espreitada

a lua deixa-se encher de brios e responde com luz alheia. agora que é noite e se aproveita do escuro com que se deixa espreitar.

1.06.2010

à tua espera

disseste que passavas mais logo. a recolher
o olhar que não consegui devolver-te. e
assim foste cega, e eu a ver-te apenas
os lábios e as mãos
por onde começaste a enfeitar-me o peito. a
tua língua não é português,
mas húmida carne
que agora
me fere a intimidade com paciência.
até que descubro, só tu vês um gesto
que tinha guardado - por perdido-
desde os anos do arco-íris. abraço-te
já a saber que o escuro é luminoso
e me vou perder
no corpo inteiro onde castigo o choro. deixo
perdido um dedo caído
que piamente te plastifica o seio
e nada mais roubo ao reverso da palavra,
já só és tu o som do mundo. mudo
num terno solfejo de pele.
1.

antes de nasceres eram
de pedra as tuas lágrimas,
o teu peito tinha pétalas e raízes
e os teus dedos prolongavam
os braços do rio.
então,
o teu coração
era um vulcão
que dava seiva ao tempo.
depois de nasceres
transitado em vida
voltarás a renovar um olhar
antes que as tuas lágrimas sejam pedra
e as raízes
e as pétalas
encham o teu peito
enquanto os braços do rio
são o prolongamento dos teus dedos.

(eternidade)

2.
Não sei se chora
aquele pastor de reflexos
agora que vejo a noite
chegar-se com a pressa dos ventos.

Recolhe as sobras de um dia de luz
cajado ao socorro do mar
entre a prata e o negro que a engole.

São nossas as areias do Índico
e a gasosa regressa à Matola,
que amanhã é domingo
e expulsarás cedo os demónios da noite.

O dia despede-se sem as cortesias do Norte
que quer vir depressa renovar a tenda
e as mulheres têm os olhos muito negros
debruados de muita espuma, muito branca.

(lembrança de Maputo)

1.04.2010

Pergunto-me

O som das gaivotas lembra o grito e o choro
e, olhando o azul onde enfeitam o espaço,
pergunto-me porque não aprenderam a rir.

Há um menino na borda da maré
que atira cuspo a um caranguejo mirrado
e pergunto-me porque não aprendeu a ter medo.

Há uma saudade tua entre os rochedos
que nem as ondas lavam da areia
e pergunto-me porque me não solto em liberdade.
Deixa que por baixo da minha loucura ondulada,
suave e lenta, no dedo epigrafado a folha branca
sue os carris de gesso
a inventar estações de nuvens perdidas
onde deposita bronzes de letras mortas.

que tu pules nos lábios do verão
e conjugues de formas sem tempo
só para encantares de sonambulismo
o ritmo com que me apresto às manhãs.

queria inventar um mundo novo
feito de cordas de baloiço e nariz de palhaço
só para entreter a monotonia do espaço
que me leva de volta ao som do infinito.

(9.08.09)
a vida é um rio do tamanho do tempo, correndo entre o respirar da mãe e o fôlego que antecede o vazio.

notas à margem

12.31.2009

2

M
i
l

e

9

12.24.2009

N
A
T
A
L

12.14.2009

e assim vai o mundo...

caíam os risos a cada passo dado
e só o rei - bem sei - como esperado
sofria da falta no palácio de espelho
e da memória partir, agora velho.

e o rei vai nu, gritou um desgraçado
tal como tu, (bom) povo espantado
a não querer ver o que bem via
sabendo que dizer o não podia.

e o rei olhou-os, todos num repente
e gritou, a moda ora é transparente
e a gente muda, sem querer crer
foi a casa despir-se, e voltou a correr.

12.07.2009

às vezes as coisa têm de ser ditas...

ZANGA DE COTOVELO

(no quarto do hotel, lá ao fundo
entra luz verde dum anúncio de porcelanas
e, de repente, meu coração, todo o meu mundo
começa a ouvir vozes e perceber coisas estranhas

noto umas vozes de surdina, rasteiras
e a seguir uns gritos lânguidos e profundos
cheios de palavras uivadas em modo d'asneiras
e um êxtase vivo, de poucos em poucos segundos)

Prestando atenção, vejo que o som do teu amor ficou
e agora enche o quarto em algazarra, este quarto onde vínhamos

quando éramos amantes (e até antes)
e que agora usaste, estupor
para fazer amor
com um qualquer finório
(penso que é o gajo do escritório)

12.01.2009

à espera da hora do baile

11.25.2009

valer a pena

E nunca perguntamos se valer a pena
é o castigo consumado
ou a vitória triste da melancolia

Só a aceitamos
como dádiva perfumada aos outros
em gestos carimbados de consolação

Queremos, depois, a recompensa,
sólida oferenda de parcos restos,
afago de dissabores descobertos

À maneira de Deus
inventamo-nos magnânimes
mas só o tempo nos cura
do desconforto do crédito.

sábado à espera

o dia inventa solidões claras:
é a luz de sábado e as crianças
baloiçam nos jardins de cimento

enquanto desperto de um poema
esquecido na noite
que ontem escureceu de cansaço
entre uma cerveja por beber
e os beijos predestinados
congelados até ao Novembro do regresso
dessa Paris inventada só para os amantes,
os que não suplicam a espera
como eu
nesta cidade morta de Mondego

virás com a virgindade que me dedicas
- indiferentemente mentirosa -
como as nuvens que se dissipam
rindo
simulando
o dia das solidões claras.

10.29.2009

hábitos antigos

não fora jovem e pedia um inverno, servido a correr. só para me deixar em casa a ver os pingos. da janela e nas letras.

h1n1

mas a A?!...

teimoso

e continua no gozo, este céu (venturoso) que se finge maio ou mais além. um fim de regras ao alcance das bruxas e pronto a fazer caretas ao santo das castanhas.

10.25.2009

outubro

é um mês a finar-se do modo mais insano. incapaz de abafar por completo o frio de se afirmar um ente novo, mas sem suficiência para se dizer o que sempre havia sido.

outono

o tempo, esse deu agora em lançar um aviso aos ossos. ainda suave, mas certo da irreversibilidade dos dias. castigador do deleite a que se prestaram os utentes de um verão tão desconforme aos hábitos, tão prolongado de desejos.

9.23.2009

sem título

9.19.2009

setembro

fica sempre por saber se é um fim ou um regresso. se as nuvens anunciam ou dissipam. se as gentes correm em busca da novidade ou se fogem das memórias recentes. o verão tem essa inquietude de não se anunciar, a mesma que teima em odiar as despedidas.

regresso às aulas

a campainha percute-se rouca, com o corpo insuflado dos suores do verão. e desculpa o atraso do recomeço, tempo de comparar as memórias dos castelos de areia e do azul do mar.

vindima

os cachos estão prontos, os bagos gordos. mas suplicam um acrescento de espera, que querem beber por inteiro o seu elemento. antes do decesso do corte, antes da alegria alheia.

fim de verão

os teus olhos, e é setembro, carregam mais a melancolia de um verão por decidir. o terno dizer adeus dá-te a cor da despedida que sempre parece prematura. temente da ausência e da incerteza do regresso breve.

9.18.2009

no escasso período
de uma antiga sanidade
faleço as loucuras teimadas por ti
e arregalo o mundo
como dádiva de luz e sol;
como se pudesse
albergar de novo a respiração
suave da diligência.
trazemos o sinal da demora
nos corpos ainda por gastar,
ciência de imperfeição
e impaciência,
que todos os dias
tomba à guarda da noite.

9.11.2009

gaivota - ou lenço? - a dizer adeus ao cinzento azul do mar que a deseja

9.01.2009

aqui, nesse lugar de pequenino

é aqui que aqui regresso
submergido do tempo parado
com que desenovelei as primaveras.
é aqui que reponho eras
no granito onde correm os berlindes
(abafa, abafa…)
e retrocedo o bastante
que deixa ver uma cidade
no côncavo da mão.
é aqui que já não choro
o arrepio de perder ao mata
(esconde, salta…)
secadas as lágrimas
ao sal de trinta anos;
é aqui…

8.27.2009

Vidas....

I
e a verdade caiu alí por inteiro. inopinada.
desesperada. como um bátega.
distrairam-se dos relógios
a confundir o sono da tarde
e voltaram a olhar os relógios.
cada qual.
no passeio contrário apressou-me
um homem que levava uma encomenta
a embriagarem-lhe as pernas
as que subiam escadas
há oitenta anos.
olhou-os sem admiração
e a encomenda
vacilou dois percalços
entre a montra de langerie
e o sapateiro gordo
sonolento
a divagar contra umas gáspeas.
uma criança assobiou
um trinado pimba.
e os homens acabaram por dispersar
sem um aceno de adeus.

II
na ocasião
cada qual podia dizer o que entendesse
e aos mais castos
era permitido ficarem absortos
sem contribuírem para os desacertos
com que cada outro
dialogava o vento inesperado
o sol dos costumes
e a maria do fundo de vila.
que apostavam grávida.
que garantiam acertar não saber de quem.

III
era o tempo antigo.
a desculpa que os permitia
os arreigados hábitos
o desdém de alterar.
gastavam os caminhos
na teimosia da insistência.
e até as palavras de aceno
eram o silêncio do falso toque
que sugestionava
um soluço do chapéu.

Nocturno

Gostava de dizer-te, madrugada
ao nascer do ouvido, se consente
que sou da noite, erva decepada
e só assim me tomo por valente

Não acredito no Sol, tão inebriado
que ofusca solidão a todo o tempo
prefiro é um gesto gasto e parado
fico melhor no Novembro cinzento

Gosto de andar no escuro, errante
e se brilho aí houver que seja eu
a sonhar que cavalgo o rucinante
e se o Sol quiser, venha ser meu.

a revolta das coisas

sou um relógio.
daqueles de cuco preto
e um rancho bávaro
a guinchar as horas.
há um menino
de calções repuxados pelos guindastes dos suspensórios
que se esconde da mãe
e me volteia o pêndulo
até à exaustão dos bávaros.
o cuco já não pode com ele
e
qualquer dia
- está combinado -
vamos estatelar-nos naquele cabelo loiro de tigela.
a mãe dirá que é acidente
o garoto vai amargar três pensos
e redondos de mercúrio.
o deus dos relógios, o dos cucos, o dos ranchos,
tal como o deles,
perdoarão esta legítima defesa.

regressos

No instante perdido
entre o desacerto e a vontade de voltar a ver
quedei. encontrei no teu horizonte
misturas de insatisfação antiga
(de tanto desejo por cumprir)
e de diferentes alegrias de crença
(de tantas vontades começadas)
e sempre o singelo brilho
que confunde o sentimento íntimo.

Deixei de te ver
quando o horizonte e o mar
desenharam
uma amálgama de cores
e a confusão da vista
se refez na da respiração compassada
com que
deixava o tempo partir
em fim de tarde.
pouco esperançado
(mas ansioso)
do teu
- eventual -
regresso
em mistura de escuro
brilhando como as estrelas.

8.26.2009

à espera das flores

deitei-me em cima do silêncio
à espera do teu grito.
a cidade desocupa-se dos meus tormentos.
o relógio diz oito e dezoito
e eu via uma gaivota
a recolher as preces.
é noite, ainda:
enquanto o sol engole as ruas
reinvento o tempo
em lágrimas repetidas.
como se fosse sempre uma primeira vez
levanto-me trôpego
e visto à pressa a camisa de desânimos
e calço este poema triste
e a gravata - como outrora - melancólica.
mais logo
à noite
trarei flores de cheiro leve e
mesmo que breve
repito a tua espera.

8.13.2009

milimetrica mente

milimetricamente
desenho os teus dedos com a minha mão
rezo aos medos
e deito-me a imaginar a cor do adeus;
depois (sem qualquer razão)
vejo que já não são os teus

e espero que a manhã venha inquieta,
que vista papoilas onde deixei as rosas
e que todas as letras das prosas
se desfaçam no poema que esqueci
bem diferente de ti
eu penso ainda amar o esquecimento

corto então as mãos do meu desenho
dedo a dedo, medo a medo
sem saber se são as tuas ou as minhas
não me amanho,
estou farto de adivinhas,
e as palavras que misturo neste verso
são todas falsas sem o teu regresso

resta que a cama sonhe em meu lugar
um terraço de sereias cor da sorte;
junto ao mar
desfaço sempre a meias
meia morte

e fico mais à espera, agora que a noite se revolte
e não aceite palavras que não murchem

não quero nada maior que a memória

(13.08.2009)

8.12.2009

coisas que são próprias da lua

e a lua, tímida e incapaz de mentir mais o seu estado decrescente, temendo que fosse pouca a luz que queria dar, pediu à luz dos homens que o rio visse a ponte em tons de azul e que a água, escondida na noite, também viesse à festa, iluminando-se em salpicos claros, enquanto as crianças, do outro lado que agora nem se vê, passeavam balões coloridos de arco-íris.

8.03.2009

ele veio para tirar, mas com aquele tamanho há sempre o risco de
ser o apanhado (1000 Kms de Portimão, 1/2 Agosto de 2009)

7.29.2009

Publicidade a custo zero

Inflama o horizonte

7.27.2009

mais a sério

selo-te uma carta em tons de pérola e ponho lá dentro um ramo de corações irrequietos. assim que abrires obrigam-te a rir e mais facilmente dirás que sim.

voltando aos tempos

falávamos no cochicho das janelas, entre os alpendres da vigilância e prometíamos futuros o tempo todo. nem a chuva nos arreda da comunicação, como os ossos hoje bem sabem.

cibertempos

queria mandar-te uma mensagem nas ciberondas. mas dizem que isso é só para os primeiros. tempos estes...
chocolate à maneira de telhado (ou vice-versa)