5.22.2008


Prateada

A hora deixa na noite, de arrepios
A vista de meu cansaço enevoada
Procuro no vazio dos lugares vazios
A dela, minha lembrança esvaziada.

Salpico a memória com a luz de restos
Aflijo-me de não sentir um só recordo
Invento desculpas em jeito de protestos
Como a balir, e sabendo que não mordo

Afinal o esforço não me valeria de nada
Sempre assim é a quem por pouco sofre
A mulher esconde cor em forma prateada
E anda aí a incomodar noutro (belo) blog.

Queria

Queria sair
Do mundo que entijola;
Queria fugir
Desta caquéctica gaiola
Onde se escondem sabores
Gastos de esperas ocas
Gozados na ilusão d’amores
Fingidos em entregas poucas

Bom-tom

Escoa-se entre os pequenos dedos
da memória a centelha de fogo brando
que dissipa angústias e outros medos
que sem te lembrar, de vez em quando

guardo para mim como certo castigo
de te não procurar, apenas pelo perigo
de aceitar que não é de bom-tom o risco
e vale mais parar. Então eu desisto.


5.19.2008

mundo

o mundo é o que é. é, mesmo quando se vê por inteiro da varanda do mar e se acrescenta sonho à paisagem perdida.

maioria

entre uns e outros, chegava a maioria. carregava as agruras da véspera, com o som das mulheres alapado na cera dos ouvidos. com o silêncio dos homens, no desespero de uma repetição. logo à noite.

estação

chegavam. enquanto uns traziam toda a semana de melancolia, outros, na outra ponta, galvanizavam um dia de céu aberto e nem as suaves mochilas lhes pesavam.

domingo ido

findara um pardacento dia. dia de domingo. como se, sem nada pingar, chovesse o tempo todo.

amor livre

que liberdade de acção pode restar a um amor... é verdade que até uma pergunta, se assim feita, excede a razão.

5.18.2008



Mara

De que vale, Mara, o azul cinzento que te cobre os olhos, se não vês?
Passo ao alcance de um trejeito e confundes-me com o resto do mundo, Tanto dá…
E nem a súplica que te deixo alcança o teu perdão; nem o sorriso que desenho atinge o teu reparo. Nem nada nem ninguém me consente ousar uma espera; um ténue enlevo que fosse.
Desde há dias que não te sonho, mesmo nas noites geladas em que me recolho cedo. Levanto-me a meio da aurora sem te lembrar. E fico triste.
Ainda há meses acordava contigo numa memória de pétalas e cheiros.
Sabes que o teu aroma tem o mesmo som do olhar que me escondes?
Sabes a que cheiram os teus lábios, a que sabem os teus olhos?
O azul, se é cinzento, sabe-me igual à cor da chuva, quando cai triste em folhas de Outubro. Se o Sol te rasga, Mara, já os olhos me cheiram ao redondo dos malmequeres, num meio-dia de Maio.
O que me dói – mais de manhã, quando a falta de lembrança me não deixa esquecer-te – é não poder cantar-te o que o silêncio me revela, entoar-te um hino com a fé de um surdo, ser-te Mozart sem pintar uma nota.


desentendimento

chamava ao longo do dia e o nome perdia-se nas diabruras do vento. quando a luz se perdeu ela, ela deu sinal, mas o cansaço já te tolhia o entendimento.


só no escuro

Acalenta-me a esperança fugidia
De te rever numa curva apertada
Àquela hora onde se perde o dia,
Onde a luz se mistura com o nada

Sei assim que os contornos não são teus
A mistura do que recordo e do que sonho
Esse que perde a noite nos fogos só meus
E deixa estrelas no escuro onde me ponho

Se vieres de luz, então tenho receio
De deslumbrar ao facho que me dás
De ficar preso na corrente do enleio
Que obriga o forte julgar-se incapaz

Inventando

Deixa inventar-te uma métrica nova
que barafuste dos códigos o saber
para que assim, pondo-me à prova
consiga inteirar-te o meu sofrer

em ditongos e sílabas me defino
e nas palavras, soltas aos pedaços,
as que desfaço em cada desatino
e refaço, de novo, nos abraços.

Porque falar-te vero não me dá
o jeito que cuidava e não o tenho.
Inventar outro modo? – eu sei cá…
insisto de a mais carecer engenho.


flor

vi uma flor cujo nome nunca saberei. era linda, mas recolhia-se, risonha de humildade, atrás de um verde arbusto que a apaziguavam.

palavras

descanso os lábios entre as palavras gastas, já corrompidas da poeira de gerações. às vezes recordo umas antigas que se foram poupando, revoltadas dos excessos.


P D

Delgada Ponta que me dá saudade
Imagem fugidia, a par da idade
Veria essa luz na inteira noite
Sem perder este olhar d’assombro
(o mar revolto, a água, o monte)
Se pudesse sonhar-te só metade
E dormiria aconchegado no teu ombro.


deixa

Deixa que eu beije os teus lábios rotos
ansioso os vejo, carentes como poucos
deste reencontro pintado de vermelho.

Antes de te chegar, treino-me ao espelho
Antecipando receio de me imaginar velho

Os teus são só os meus, que ali emolduro
não vendo mais que meus se teus procuro
mas insisto em treinar-me pró reencontro
acreditando assim que teus não desaponto

Amanhã, muito cedo ainda, partirei
carregando juventude e longo estágio
e esses lábios que aos meus encostarei
são dos do espelho a carne de plágio.

Afinal, é apenas nosso o que expandimos
fingindo e sonhando ser pertença de outro
e tudo isso, nosso e não, ainda repartimos
deixando-nos, a nós, pedaços de tão pouco

em memória

Tantos os anos que lá vão, nem os contei
Mas vejo ser muito o tempo a ti roubado
Ou, talvez, descrente, sequer eu reparei
Que continuarás em Céu mais abrigado.

Como não entendo a vida que nos dão
Ainda menos entenderia uma vida outra
Deixo só uma palavra pobre de gratidão
Por aceitar que nos guardes aquela Porta.

No mais, muito mais que pouco digo
Manda a saudade que o verbo traça;
Só na aparência não estamos contigo
Só na pequenez a morte é uma desgraça.
Um rasgo de lembrança desfaz-me a atenção
Assim que a pergunto para os deveres do dia;
Fica-me o serviço torto, ignoro-lhe a primazia
(preso na ideia de seres mais que tentação).

Sai-me da frente, que eu não posso
Perder-me nos devaneios de te ver.
Não escrevo, não falo e nem ouço
Porque só penso na forma de te ter.



meg

Um sentimento ambíguo no olhar partilhado
Uma espécie de perigo vinda de todo o lado.

Queria dizer, não avançar a qualquer jeito
Deixavas perceber que não abririas o peito.

Um jogo escondido no olhar aberto
O gozo perdido de te ter por perto.

Horas de embaraço e deixei-me estar
Se não sei o que faço, faço por parar.

E, num instante disse, Olá Margarida
Flor que odoras de estares tão querida.

d' ânsias embriagado

Verdadeiramente, custava-me a ver aquela
Insistência de m’avisares sempre do perigo
Seguindo-me os passos como numa sequela
De um filme mudo, passado e muito antigo.

Se queres dizer, corro riscos, quem não
Os corre, nesta vida airada e d’aventura
Quando nos cabe, dia a dia, essa opção
D’escolher entre desatino e compostura.

Deixa estar assim, d’ânsias embriagado
Na corda bamba entre sarcasmo e siso
Pior seria se me tivesse aí desfeiteado
D’omissões que enganei não ser preciso.



tangerinas

o cheiro das tangerinas parece azul celeste, se o recordo. memórias de bibe e joelhos marcados de contarem as escadas de granito.

contorno

pareceu-me ver, assim que larguei o leito, um contorno diferente do dos dias iguais. fiquei na dúvida, entre a imaginação, uma alma pesada, ou...


caras de ver

Dizes que estou, logo hoje, de melhor cara
E eu sei que nem és budista para acreditar
Nessa mudança que a cada dia nos separa
Da lembrança de em cada dia ainda mudar

A cara é d’ ontem e antes, certamente
E será a minha daqui ao fim dos dias
Salvo se lhe descobriste, num repente
Apagada imagem de antigas alegrias

Ou então, sei lá, dormi anos a fio
E a idade confunde-me a memória
E nem consigo vencer este desafio
D’emparelhar a cara com a história

Como quer que seja, uso a que cá tenho
Que será a que vês, mesmo sem eu a ter
E seja ou não seja, com ela eu me amanho
Porque só me serve a que tu quiseres ver.
Deixa que te revazie o espaço d’um desejo
Que deixara à socapa no teu coração
Pois preciso de renovar um beijo prometido
E não tenho sítio onde o guardar cuidado.