Enfada-me muito a loucura da pureza
com que nos ostentam o dever de castidade
quando nos explicam que a deles é a verdade
e que já nascem a saber definir beleza.
Agora tudo é pecador e desgraçado,
formas ignóbeis de morrer mais cedo
o que tem valor é o valor do medo
e grassa a desgraça ao ser-se engraçado.
Fumar é crime de lesa-magestade
comer é um vício primitivo
e se quiseres continuar vivo
reduz o sexo a menos de metade.
Pensando bem, o risco existe a sério,
já nem Jesus quer ficar na fotografia;
a morte já não tem qualquer mistério
e à entrada do céu faz-s’uma radiografia.
Se chegamos cheios de saúde e alegria
o São Pedro certifica-nos os pulmões,
confirmamos ter a alma bem vazia
e ter deixado no SNS os finais tostões.
Faziam-se testes de línguas, antigamente.
Agora não, tudo salta do clínico boletim:
Quem tem saúde, esse vai em frente
Os demais terão um desgraçado fim.
5.18.2008
5.17.2008
confuso
Cai uma tarde de Inverno rouco,
como as palavras que não te diga,
perdendo a voz, pouco a pouco
e o em mim ter-te, minha amiga.
E nem já te digo, conformado
que o risco de perder-te é abafado.
Que, afinal, era perder-te por aí,
igual a te não ter em pensamento:
viver sem pensar é não pensar em ti
e confundir o infinito no momento.
como as palavras que não te diga,
perdendo a voz, pouco a pouco
e o em mim ter-te, minha amiga.
E nem já te digo, conformado
que o risco de perder-te é abafado.
Que, afinal, era perder-te por aí,
igual a te não ter em pensamento:
viver sem pensar é não pensar em ti
e confundir o infinito no momento.
como enfeitar as raparigas
Aborrece-me o som dos que respiram fundo
Como se, duma vez, aspirassem o mundo;
Aborrece-me o riso dos que vendem lotaria
Como se, em pacotes, comprássemos alegria.
É tentador pensar poder ser outro o mundo
Aquecer a Islândia com um simples aceno
E por arte mágica, de condão, num segundo
Regar todo o Saara com as águas do Reno
E fazer com que os homens fossem bons
E as mulheres por igual e muito amigas
Cada qual pintando a vida nos seus tons
Como o poeta gosta d’enfeitar as raparigas.
Como se, duma vez, aspirassem o mundo;
Aborrece-me o riso dos que vendem lotaria
Como se, em pacotes, comprássemos alegria.
É tentador pensar poder ser outro o mundo
Aquecer a Islândia com um simples aceno
E por arte mágica, de condão, num segundo
Regar todo o Saara com as águas do Reno
E fazer com que os homens fossem bons
E as mulheres por igual e muito amigas
Cada qual pintando a vida nos seus tons
Como o poeta gosta d’enfeitar as raparigas.
jogar às escondidas
Barras-me num limite fluido
Aí envolves o a que não chego
Simuladora transparência, vidro
Tento de evaporar o mútuo medo
Se nos chegarmos um pouco mais
Ainda que o receio domine o gesto
Já acredito que acertei, e tu não sais
Porque aceitas que a vida vale o resto
Jogamos desse modo às escondidas
Entre todo o amor e o amor p’ra ter;
Mistura de cautelas e de desmedidas.
Dúvida tanta entre o querer e o poder.
Aí envolves o a que não chego
Simuladora transparência, vidro
Tento de evaporar o mútuo medo
Se nos chegarmos um pouco mais
Ainda que o receio domine o gesto
Já acredito que acertei, e tu não sais
Porque aceitas que a vida vale o resto
Jogamos desse modo às escondidas
Entre todo o amor e o amor p’ra ter;
Mistura de cautelas e de desmedidas.
Dúvida tanta entre o querer e o poder.
5.16.2008
5.15.2008
5.11.2008
amores de espuma
Escassas as palavras que se confundam
contigo e renovem esperanças perdidas
de quando aceitávamos todo o mundo
como luz a incandescer as tristes vidas.
Tínhamos aí quinze anos e liberdade
era Agosto, o sol queimava os corpos
nenhum saberia dizer, nem a saudade
nem a oração libertadora dos devotos.
Só nos entregávamos à inconfidência
dos beijos ressuscitados além da duna
depois de castelos d’areia em paciência
de conseguirmos o cimento que nos una.
Deixámos no mar a promessa inteira
de nunca esquecermos essa ousadia
que era a cresta agreste da soleira
nos lábios humedecidos em fantasia.
Entrelaçámos mãos em compromisso
eterno como o fulgor dos tais abraços
numa fé ainda maior que a do noviço
que a Deus entrega ambos os braços.
No Verão seguinte não te vi na onda,
senti que o desespero tinha chegado,
rogando que a mágoa, bem profunda
tivesse o mesmo desgosto do teu lado.
Mas não, não sei sequer se foi assim
porque aprendi o timbre da saudade,
fiquei sozinho, mais chegado a mim
mesmo que creditado em liberdade.
contigo e renovem esperanças perdidas
de quando aceitávamos todo o mundo
como luz a incandescer as tristes vidas.
Tínhamos aí quinze anos e liberdade
era Agosto, o sol queimava os corpos
nenhum saberia dizer, nem a saudade
nem a oração libertadora dos devotos.
Só nos entregávamos à inconfidência
dos beijos ressuscitados além da duna
depois de castelos d’areia em paciência
de conseguirmos o cimento que nos una.
Deixámos no mar a promessa inteira
de nunca esquecermos essa ousadia
que era a cresta agreste da soleira
nos lábios humedecidos em fantasia.
Entrelaçámos mãos em compromisso
eterno como o fulgor dos tais abraços
numa fé ainda maior que a do noviço
que a Deus entrega ambos os braços.
No Verão seguinte não te vi na onda,
senti que o desespero tinha chegado,
rogando que a mágoa, bem profunda
tivesse o mesmo desgosto do teu lado.
Mas não, não sei sequer se foi assim
porque aprendi o timbre da saudade,
fiquei sozinho, mais chegado a mim
mesmo que creditado em liberdade.
desperta-se em mim
Desperta-se em mim mesmo uma
Sonolência teimosa, deixa-me sem
Maneiras, parecendo uma pluma
Esvoaçando ao vento que nem
O aconchego da brisa reflectida
Nas nuvens dormentes, como
Se fosse vencível a partida.
E, depois, uma a uma eu somo
As horas que me deixo alheado
Como se um bocado de tempo
Não contasse, como se o vento
Me arrastasse, levando a vontade
A qualquer longínquo pecado.
No fundo, deixa-me só metade
E eu parto quase acordado.
Sonolência teimosa, deixa-me sem
Maneiras, parecendo uma pluma
Esvoaçando ao vento que nem
O aconchego da brisa reflectida
Nas nuvens dormentes, como
Se fosse vencível a partida.
E, depois, uma a uma eu somo
As horas que me deixo alheado
Como se um bocado de tempo
Não contasse, como se o vento
Me arrastasse, levando a vontade
A qualquer longínquo pecado.
No fundo, deixa-me só metade
E eu parto quase acordado.
as tuas palavras
Contorno suavemente as tuas palavras,
A socorrer-lhes o (meu) sentido íntimo
Mas não tenho atrito e elas são vidradas
Deixa-me a dúvida de sentir o que sinto.
Apalpo o fôlego que como som lhes sobra
E tento escutá-las só com os gestos da mão
Afago-as mais ao peito, ponho-me à prova:
Se é o teu ou o meu o respirar do coração.
Mas as palavras esgotam-se no escuro
E eu confundo cada um dos corações;
Aproveito e digo amo, num sussurro,
Como quem soletra as suas orações.
A socorrer-lhes o (meu) sentido íntimo
Mas não tenho atrito e elas são vidradas
Deixa-me a dúvida de sentir o que sinto.
Apalpo o fôlego que como som lhes sobra
E tento escutá-las só com os gestos da mão
Afago-as mais ao peito, ponho-me à prova:
Se é o teu ou o meu o respirar do coração.
Mas as palavras esgotam-se no escuro
E eu confundo cada um dos corações;
Aproveito e digo amo, num sussurro,
Como quem soletra as suas orações.
agruras várias
Desconsolado de várias agruras
Dei-me a pensar um novo hino
Que da terra chã às hirtas alturas
Me abrisse a lógica do feminino
Fui buscar o saber do Marmelo:
Virem com livro de instruções,
Tentando desfazer muito novelo
Para evitar cair nas tentações.
Virei a escrita de alto a baixo
E a resposta recusou-se chegar
Fiquei conforme e cabisbaixo
Das penas dadas a meu penar.
Dei-me a pensar um novo hino
Que da terra chã às hirtas alturas
Me abrisse a lógica do feminino
Fui buscar o saber do Marmelo:
Virem com livro de instruções,
Tentando desfazer muito novelo
Para evitar cair nas tentações.
Virei a escrita de alto a baixo
E a resposta recusou-se chegar
Fiquei conforme e cabisbaixo
Das penas dadas a meu penar.
a tua lembrança
A lua fazia caretas para entreter o luar
Ali, ao frio de Novembro, junto ao mar
Tal como os teus olhos distraem o olhar
E me perdem em vãs fantasias de ritmo
Onde a rima é apenas um recurso aflito
Para dizer o que não posso nem consinto
Vale a pena arriscar um derradeiro não?
Se tudo parece que vale, arrisco então:
A tua lembrança aperta-me num sufoco
Por muito que me deixes lembrar pouco
Ali, ao frio de Novembro, junto ao mar
Tal como os teus olhos distraem o olhar
E me perdem em vãs fantasias de ritmo
Onde a rima é apenas um recurso aflito
Para dizer o que não posso nem consinto
Vale a pena arriscar um derradeiro não?
Se tudo parece que vale, arrisco então:
A tua lembrança aperta-me num sufoco
Por muito que me deixes lembrar pouco
lembrança do mar
Curvo-me ao mar, não por respeito apenas,
pelas histórias q’enrolam as ondas serenas:
marinheiros trespassados por cúpidos de sereias
castelos fantásticos engolidos por limos nas ameias.
Se a onda se encrespa, agreste e revolta,
enchem-se de sangue e gritos as fantasias:
tremendos piratas e uma princesa morta
num turvo fundo que m’engole as alegrias.
O verde e o azul juntam-se num tabuado
onde fantasmas desdentados cantam assobios
traçando no ondulado riscos de sapateado
até suarem, só pel’ manhã, seus desafios.
As gaivotas alertam-me no enquanto
reparo nas cruzetas daquele desenho
como se de Arraiolos fosse um manto
o oblíquo voo onde me detenho.
Passo assim tardes infindas, sentindo
o verde, a elas, o azul e a história
coisas que na escola vou mentindo
até que partam, fugindo da memória.
pelas histórias q’enrolam as ondas serenas:
marinheiros trespassados por cúpidos de sereias
castelos fantásticos engolidos por limos nas ameias.
Se a onda se encrespa, agreste e revolta,
enchem-se de sangue e gritos as fantasias:
tremendos piratas e uma princesa morta
num turvo fundo que m’engole as alegrias.
O verde e o azul juntam-se num tabuado
onde fantasmas desdentados cantam assobios
traçando no ondulado riscos de sapateado
até suarem, só pel’ manhã, seus desafios.
As gaivotas alertam-me no enquanto
reparo nas cruzetas daquele desenho
como se de Arraiolos fosse um manto
o oblíquo voo onde me detenho.
Passo assim tardes infindas, sentindo
o verde, a elas, o azul e a história
coisas que na escola vou mentindo
até que partam, fugindo da memória.
na esplanada
Estava sentado na esplanada
quando o azul me trespassou
e lá deixou um traço de nada
do olhar que me (en)levou.
O mar picado ali tão perto
quase a salpicar-me os pés
e tão morto, nem desperto
para saborear quem tu és.
Não sei quanto é um segundo
na história da humanidade,
mas já sei, oiço-o no fundo,
que não podes ser de verdade.
Talvez um dia: cá regressas
e trazes canções de embalar.
Vós, mulheres, é só promessas,
eu estou-me sempre a enganar.
quando o azul me trespassou
e lá deixou um traço de nada
do olhar que me (en)levou.
O mar picado ali tão perto
quase a salpicar-me os pés
e tão morto, nem desperto
para saborear quem tu és.
Não sei quanto é um segundo
na história da humanidade,
mas já sei, oiço-o no fundo,
que não podes ser de verdade.
Talvez um dia: cá regressas
e trazes canções de embalar.
Vós, mulheres, é só promessas,
eu estou-me sempre a enganar.
junto ao mar
Aqui junto ao mar é que entendo
a dor que me causa rimar
cada poesia. As ondas são irregulares
e balançam tanta fantasia! Todos
os sábios dizem que o poema é sangue
ou música e não riminha. Tenho
pena de não saber (essa adivinha
que o mar me está sempre a corroer)
(paciência…)
Aqui junto ao mar é que entendo
a poesia;
compreendo
que não é rimar
nem é alegria.
Sei que é sangue, que é cantar
mas numa teimosia d’espantar
o braço sempre desafina
largando uma ou outra rima.
Sofro e desgosto
neste pesar.
Mesmo em Agosto,
junto ao mar.
(enfim…)
a dor que me causa rimar
cada poesia. As ondas são irregulares
e balançam tanta fantasia! Todos
os sábios dizem que o poema é sangue
ou música e não riminha. Tenho
pena de não saber (essa adivinha
que o mar me está sempre a corroer)
(paciência…)
Aqui junto ao mar é que entendo
a poesia;
compreendo
que não é rimar
nem é alegria.
Sei que é sangue, que é cantar
mas numa teimosia d’espantar
o braço sempre desafina
largando uma ou outra rima.
Sofro e desgosto
neste pesar.
Mesmo em Agosto,
junto ao mar.
(enfim…)
vermelhos laços
Cadeias de vermelhos laços
Prendiam-nos trocado olhar
Como se grinaldas de braços
Onde nos queríamos amarrar.
Cada gesto meu não me pertencia
E desprendias-te do teu por igual,
Inventando uma dança em fantasia
Que de dois seria, um arranjo floral.
Deixa beijar-te o gesto sem tocar a mão
Roubando do poeta os ditos d’encantar,
Que assim, o que se te toca é o coração;
E no céu, só se sentem saudades a voar.
Prendiam-nos trocado olhar
Como se grinaldas de braços
Onde nos queríamos amarrar.
Cada gesto meu não me pertencia
E desprendias-te do teu por igual,
Inventando uma dança em fantasia
Que de dois seria, um arranjo floral.
Deixa beijar-te o gesto sem tocar a mão
Roubando do poeta os ditos d’encantar,
Que assim, o que se te toca é o coração;
E no céu, só se sentem saudades a voar.
a cor da neve
A cor da neve no rasto da lua
O tom do nevoeiro após a chuva
A luta do olhar por uma súplica
O som do sorriso quando te vejo
Tinha na veia um poema necessário
que precisava de escrever no teu peito
a escorregar, lânguido, em tons de vento
e que desça em encanto
ou encantamento
O tom do nevoeiro após a chuva
A luta do olhar por uma súplica
O som do sorriso quando te vejo
Tinha na veia um poema necessário
que precisava de escrever no teu peito
a escorregar, lânguido, em tons de vento
e que desça em encanto
ou encantamento
3.31.2008
3.18.2008
fotografia
olhava distraído a voz da imagem que deixaste perdida na mesinha que encosta à cama. dizia-me que partias sem retorno. olhando melhor, dizia - isso sim - que não eras a mesma: a imagem perdera-se nos desencontros de nos encontrarmos tantas vezes.
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